Os principais riscos invisíveis na governança financeira das cooperativas

Por Erni Dickel, auditor e fundador da DM

Quando se fala em governança financeira nas cooperativas, o debate costuma girar em torno de riscos conhecidos, como risco de crédito, de liquidez, de exposição a variações de preços, sinistralidade, intempéries, capitalização, desempenho operacional, entre outros. No entanto, há desafios críticos que nem sempre são fáceis de identificar e muitas vezes são silenciosamente tolerados ao longo do tempo, que chamamos de riscos invisíveis.

A diversidade do cooperativismo

O cooperativismo é um modelo diverso, agregando negócios de diversos segmentos. Mas quando olhamos isoladamente é possível identificar alguns padrões entre negócios do mesmo mercado. Em setores como o agronegócio e o médico-hospitalar, por exemplo, os riscos invisíveis tendem a se confundir com práticas consideradas normais.

No agronegócio, por exemplo, a proximidade histórica com o cooperado, que é essencial para o modelo, pode levar à flexibilização contínua de critérios técnicos e, com o tempo, exceções como renegociações recorrentes sem critérios objetivos, tolerância a inadimplência crônica e decisões influenciadas por vínculos pessoais passam a ser aceitas como prática. Isso causa um problema grave que não surge de forma abrupta, mas vai criando uma deterioração silenciosa da disciplina financeira da cooperativa.

Já no setor de saúde, em cooperativas médicas, o desafio pode estar na dificuldade de confrontar interesses internos. O equilíbrio entre sustentabilidade financeira e remuneração do corpo clínico nem sempre é enfrentado de maneira objetiva e, muitas vezes, decisões são postergadas ou suavizadas, resultando em crescimento não controlado da sinistralidade, resistência a medidas estruturais de eficiência e interferência política em decisões técnicas. O risco, nesse caso, está menos no problema em si e mais na dificuldade de enfrentá-lo com transparência.

O paradoxo do quadro social: conflitos que não se explicitam

A múltipla condição do cooperado, por vezes na condição de sócio, cliente e fornecedor, cria um ambiente rico, mas também altamente complexo.

Os conflitos existem, mas frequentemente não são tratados de forma estruturada:

    • Distribuição de sobras versus necessidade de capitalização;

    • Política de preços versus sustentabilidade econômica;

    • Critérios técnicos versus relações institucionais.

O risco invisível é a naturalização desses conflitos sem mecanismos claros para sua gestão.

Governança formal x governança de fato

Outro ponto crítico é o distanciamento entre estrutura formal e prática efetiva de governança. Conselhos existem, políticas até podem estar definidas, mas na prática decisões relevantes podem acontecer fora dos fóruns formais, órgãos de governança podem ter atuação limitada ou influenciada e informações críticas podem circular de forma seletiva ou não serem alcançadas a quem participa das decisões. E essa desconexão raramente aparece de forma explícita, mas influencia diretamente a qualidade das decisões financeiras.

O maior risco invisível: a distorção das informações financeiras

Talvez o mais sensível e implacável dos riscos invisíveis esteja na qualidade das informações utilizadas para a tomada de decisão e para a prestação de contas ao quadro social. Na prática, não são raras situações em que as demonstrações financeiras carregam distorções relevantes, ainda que não necessariamente intencionais em sua origem, atenuam problemas estruturais de desempenho ou liquidez, postergam reconhecimentos que deveriam ser imediatos, criam uma percepção de estabilidade que não reflete a realidade e postergam decisões fundamentais. 

Esse fenômeno pode ter diversas origens: pressões internas, dificuldade de lidar com resultados negativos, receio de reação do quadro social, cultura organizacional que evita o conflito ou até medo de lidar com a verdade. Mas o efeito, contudo, é profundo.

Nesse cenário, a realidade pode ficar obscurecida e a administração corre o risco de se tornar refém das suas próprias narrativas ao não confrontar os riscos e criar uma espécie de “camada de proteção” que, em vez de mitigar, afasta os riscos do campo de visão.

Tornando o invisível visível

Mais do que técnicas, enfrentar riscos invisíveis exige postura e alguns movimentos fundamentais:

  • Fortalecer a independência e o papel crítico dos órgãos de governança;
  • Valorizar a transparência, mesmo quando a mensagem é desconfortável;
  • Estruturar mecanismos robustos de controle e revisão das informações financeiras;
  • Promover uma cultura que diferencie lealdade institucional de complacência;
  • Incentivar leituras críticas internas e externas sobre a real situação da cooperativa.

Os riscos mais perigosos raramente são aqueles que aparecem com clareza nos relatórios. Muitas vezes eles estão na cultura, nos relacionamentos, nas decisões não formalizadas e sobretudo nas informações que deixam de refletir integralmente a realidade. Trazer esses riscos à luz é um desafio, mas também uma necessidade porque, no fim, a sustentabilidade do modelo cooperativo não depende apenas de bons resultados, mas da capacidade de enxergar e enfrentar aquilo que, muitas vezes, se prefere não ver.

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