Reforma tributária na prática: o que cooperativas e empresas precisam revisar ainda em 2026 para se preparar para 2027 

Por José Roberto Simas, auditor e sócio da DM 

A reforma tributária já começou, mesmo antes da sua aplicação prática atingir integralmente as operações das empresas. Embora a implementação ocorra de forma gradual, 2027 marca o início de uma nova dinâmica tributária para parte das operações. Por isso, 2026 passa a ser o momento ideal para planejamento, diagnóstico e preparação. 

Mais do que acompanhar alterações legais, empresas e cooperativas precisam direcionar atenção para algo frequentemente negligenciado: a qualidade das informações que sustentam a operação. Na prática, os impactos da reforma não estarão apenas na área fiscal. Cadastro, sistemas, processos comerciais, compras, faturamento e governança interna também precisarão evoluir. 

1. Cadastro de produtos: revisar agora evita retrabalho depois 

O cadastro de produtos tende a ser um dos pilares da adaptação. Em muitas organizações, estruturas cadastrais foram construídas ao longo dos anos para atender necessidades operacionais e comerciais, sem que a dimensão tributária recebesse o mesmo nível de atenção. 

Entre os principais pontos de revisão destacam-se: 

  • classificação fiscal (NCM); 
  • descrição e padronização dos itens; 
  • regras tributárias aplicadas; 
  • parametrizações vinculadas às operações; 
  • consistência das informações utilizadas entre áreas e sistemas. 

Pequenas inconsistências podem gerar efeitos relevantes quando escaladas para milhares de documentos fiscais emitidos ou recebidos. 

2. Cadastro de clientes e fornecedores: qualidade de dados passa a ser estratégica 

Outro ponto que merece atenção está na revisão dos cadastros de clientes, fornecedores e demais parceiros comerciais. A consistência das informações será cada vez mais importante para suportar apurações, créditos e obrigações acessórias no novo ambiente tributário. 

Empresas com múltiplas bases cadastrais, integrações entre sistemas ou processos manuais tendem a enfrentar maior complexidade nesse processo. 

É fundamental identificar quais fornecedores e clientes são do regime normal (Lucro Real ou Presumido) e quais utilizam o Simples Nacional. A partir de 2027, as regras de transferência de créditos serão impactadas pelo formato de recolhimento escolhido por eles. 

3. Parametrização de Sistemas (ERP) e Regras de Negócio: A tecnologia será parte da solução 

  • Automação de Notas Fiscais: Os softwares de gestão precisam estar perfeitamente calibrados para calcular e destacar a CBS e o IBS de forma nativa e sem travamentos. 
  • Preparação para o Split Payment: O modelo de pagamento dividido; onde o imposto é retido de forma automática no momento da liquidação financeira da fatura; vai mudar a dinâmica do caixa. Testar essa integração com os bancos e sistemas de pagamento ainda em 2026 evita surpresas na liquidez da empresa em 2027. 

O Olhar Cirúrgico para as Cooperativas 

Para o setor cooperativista, o dever de casa ganha camadas extras de atenção. A regulamentação da Reforma Tributária assegurou o adequado tratamento ao Ato Cooperativo, prevendo a incidência de alíquota zero nas operações internas entre o cooperado e a cooperativa. 

No entanto, a linha que separa o ato cooperativo legítimo das operações de mercado (com terceiros não associados) precisa estar perfeitamente segregada nos sistemas de controle. Se o cadastro de cooperados apresentar falhas ou se a natureza das movimentações não estiver clara, a cooperativa corre o risco de sofrer tributação integral e imediata sobre operações que deveriam ser desoneradas, perdendo competitividade de mercado. 

4. Contratos, preços e processos internos também devem entrar na agenda 

Os efeitos da reforma podem ultrapassar o aspecto operacional e alcançar decisões comerciais e financeiras. 

Por isso, vale antecipar discussões relacionadas a: 

  • formação de preços; 
  • contratos de longo prazo; 
  • estrutura de custos; 
  • políticas comerciais; 
  • impactos sobre margens e indicadores. 

Esse exercício permite reduzir incertezas e apoiar decisões com maior previsibilidade. 

5. Preparação é um tema de governança e não apenas fiscal 

Um dos principais aprendizados observados em grandes mudanças regulatórias é que os melhores resultados costumam ocorrer quando existe atuação integrada entre áreas. 

Fiscal, contabilidade, compras, comercial, tecnologia, controladoria e liderança executiva devem participar do processo de preparação. 

Empresas e cooperativas que utilizarem 2026 para estruturar um diagnóstico, revisar dados e definir um plano de implementação tendem a iniciar 2027 com menor exposição operacional e maior capacidade de adaptação. 

Considerações finais 

A reforma tributária não será apenas uma mudança de cálculo de tributos; ela exigirá revisão de informações, processos e decisões que hoje sustentam a operação das organizações. Antecipar essa preparação ainda em 2026 pode representar menos riscos na transição e mais eficiência no novo ambiente tributário. 

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