Por Erni Dickel, auditor e fundador da DM
Por vezes vista apenas como exigência regulatória ou formalidade periódica, a auditoria em cooperativas é, na prática, uma ferramenta importante para fortalecer a confiança, a transparência e a sustentabilidade dessas organizações. Mais do que “validar números”, a auditoria ajuda a lançar luz sobre aspectos essenciais da gestão, dos controles, dos riscos e da qualidade das informações que sustentam a tomada de decisão. No entanto, para extrair o verdadeiro valor desse trabalho, é fundamental entender o seu papel, o que a ela não compete fazer, além de conhecer as áreas mais sensíveis e como cada parte envolvida pode se preparar.
Diferentes perspectivas
Sob a ótica do auditor externo, o foco está na avaliação das demonstrações financeiras. O seu objetivo é verificar se elas representam adequadamente a posição patrimonial, econômica e financeira da cooperativa, conforme as normas contábeis aplicáveis. Trata-se de um trabalho vinculado a normas técnicas, baseado em evidências, testes e julgamento profissional, com independência.
Já a auditoria interna atua de forma contínua dentro da organização, avaliando processos, controles e riscos. Seu papel é mais próximo da gestão, com caráter preventivo e orientativo, ajudando a identificar fragilidades e oportunidades de melhoria, antes que se transformem em problemas relevantes.
Por fim, sob a perspectiva da governança e da própria administração, a auditoria deve ser vista como uma aliada estratégica, não como uma ameaça. Cooperativas que melhor aproveitam o processo de auditoria são aquelas que usam seus resultados para aprimorar a gestão, fortalecer controles e qualificar a tomada de decisões.
O olhar da auditoria
Um dos equívocos comuns entre usuários de informações financeiras é acreditar que um relatório de auditoria sem ressalvas significa que a cooperativa está “bem gerida” ou “em boa situação”. Mas isso não é verdade, pois a auditoria externa não tem como objetivo avaliar a qualidade da gestão, nem emitir opinião sobre o desempenho operacional ou estratégico da cooperativa. Seu foco é avaliar se as informações financeiras preparadas pela administração e divulgadas por meio de demonstrações contábeis representam adequadamente a situação econômica e financeira.
Assim, é perfeitamente possível que uma cooperativa apresente demonstrações confiáveis, auditadas e com relatório de opinião sem ressalvas, mas possua baixo desempenho operacional, saúde financeira fragilizada e outras situações que demandam cuidados especiais. Esse ponto é especialmente importante no ambiente cooperativo, onde decisões estratégicas e desempenho dependem fortemente da governança e da participação dos cooperados.
Paradoxalmente, justamente por não avaliar a gestão, a auditoria pode acabar revelando, indiretamente, fragilidades importantes por meio dos números, estimativas e notas explicativas.
Áreas sensíveis
Embora cada cooperativa tenha características próprias, alguns temas tendem a exigir mais atenção dos auditores, como a qualidade da governança e da gestão. Estruturas pouco claras, acumulação de funções ou falta de segregação adequada tendem a aumentar significativamente os riscos.
Outro ponto central é o gerenciamento de riscos. Cooperativas que não possuem processos estruturados para identificar, avaliar, tratar e monitorar riscos operacionais, financeiros e regulatórios ficam mais expostas a surpresas negativas.
Os controles internos são igualmente críticos. Fragilidades nessa área aumentam a probabilidade de erros, inconsistências e até fraudes, e aspectos como conferências, aprovações formais, rastreabilidade das operações e integração de sistemas são frequentemente avaliadas.
E a qualidade das informações gerenciais também costuma representar um desafio recorrente nas organizações, uma vez que informações inconsistentes, desatualizadas ou pouco confiáveis podem comprometer diretamente a tomada de decisão. Por fim, o próprio processo decisório pode representar um risco se as decisões forem tomadas sem base técnica, sem análise de riscos ou sem suporte em dados confiáveis.
À primeira vista, pode parecer contraditório que as Normas de Auditoria exijam do auditor a avaliação de aspectos relacionados à gestão sem lhe atribuir a responsabilidade de emitir uma opinião sobre a qualidade da administração da empresa. No entanto, isso ocorre porque essa análise tem como objetivo compreender o contexto da organização e permitir um planejamento mais eficiente dos trabalhos de auditoria. A partir desse entendimento, o auditor consegue direcionar seus procedimentos para as áreas de maior risco, ampliando sua capacidade de identificar distorções relevantes e de reunir evidências suficientes para fundamentar sua opinião sobre a fidedignidade das demonstrações contábeis.
Além das questões estruturais, algumas áreas técnicas são tradicionalmente mais sensíveis em auditorias. Nas cooperativas que operam com crédito, por exemplo, as políticas de concessão, cobrança e provisão para perdas são fundamentais. A forma como se estima o risco de perdas e se constituem provisões impacta diretamente o resultado e a percepção de solidez da instituição.
Outro tema relevante é a mensuração de ativos e passivos com base no conceito de valor justo. Esse tipo de avaliação exige uso de premissas, modelos e julgamentos técnicos, o que aumenta o risco de distorções caso não haja critérios bem definidos e documentação adequada.
As provisões e contingências também merecem atenção, pois obrigações relacionadas a processos judiciais, questões trabalhistas ou passivos regulatórios envolvem incerteza quanto ao valor e ao momento de desembolso, exigindo avaliações criteriosas e atualizações constantes.
Todos esses temas têm em comum um elemento importante: dependem do julgamento tanto dos preparadores das informações quanto dos auditores. Quanto maior o grau de julgamento, maior o foco da auditoria.
Preparação é a chave
A preparação adequada faz toda a diferença, não apenas para tornar o processo mais eficiente, mas para maximizar os benefícios que ele pode gerar. Do ponto de vista da auditoria interna, é essencial conhecer profundamente os processos da cooperativa e manter constante atualização técnica. Seu papel como “linha de defesa” interna é fundamental.
Para que o auditor externo possa avaliar adequadamente os riscos, é fundamental compreender claramente o ambiente de controle, comunicação efetiva com a administração e constante atualização em normas contábeis e regulatórias, além, é claro, de um planejamento cuidadosamente preparado.
Já para a administração e a governança, a preparação vai além da organização de documentos. Ela envolve garantir a consistência e a rastreabilidade das informações, definir responsáveis pelo atendimento às demandas da auditoria, estimular uma cultura de transparência e participar ativamente de todo o processo.
Cooperativas que encaram a auditoria apenas como obrigação tendem a extrair pouco valor. Já aquelas que a utilizam como instrumento de melhoria contínua obtêm ganhos relevantes em gestão e credibilidade.
Conclusão
No contexto da auditoria externa, uma das questões mais sensíveis está no posicionamento do auditor e da administração ao se depararem com situações que exigem ajustes contábeis, especialmente quando há impacto nos resultados. Um posicionamento inadequado, seja do auditor ao deixar de refletir adequadamente essas situações em seu relatório, seja da administração ao resistir ao reconhecimento apropriado dos fatos, pode comprometer a qualidade das informações e, em casos mais extremos, contribui para o enfraquecimento da organização.
No fim, a grande questão não é apenas passar pela auditoria, mas sim evoluir a partir dela.
