Por Erni Dickel, auditor e fundador da DM
Falar de crescimento sustentável, construído sobre bases sólidas, é falar do equilíbrio entre investimentos, rentabilidade, crescimento e riscos. Esses componentes estão presentes no ambiente organizacional das empresas que conseguem crescer de forma consistente, preservar valor ao longo do tempo e manter capacidade de adaptação diante de cenários adversos.
Os investimentos são inevitáveis para quem pretende crescer; a rentabilidade é fundamental para remunerar os valores investidos; e o risco é inerente a qualquer negócio. O que faz diferença é a capacidade de investir no negócio certo e no momento adequado, gerir os recursos com eficiência, preservar margens de segurança e manter um processo consistente de identificação, avaliação e mitigação dos riscos.
Essa reflexão ganha ainda mais relevância quando observada em setores nos quais o crescimento exige capital intensivo, disciplina de gestão e capacidade de atravessar ciclos econômicos adversos. Nesses ambientes, o sucesso alcançado em determinado momento não garante permanência; ele precisa ser sustentado por decisões consistentes, controles adequados e visão de longo prazo.
De forma mais específica, ao longo do tempo vimos, no sistema cooperativo, grandes cooperativas perderem solidez, terem suas estruturas corroídas e chegarem a uma situação em que a recuperação já não se mostrava viável.
Vale refletir sobre os motivos que levaram essas organizações a sucumbirem depois de terem alcançado sucesso, porte relevante e aparente solidez financeira. O passado não pode ser alterado, mas deve servir de aprendizado: teriam sido investimentos realizados no momento inadequado ou sem a devida análise? Houve gestão ineficaz dos recursos, comprometendo os resultados esperados? Faltou uma estrutura de gerenciamento de riscos capaz de antecipar, monitorar e responder aos sinais de deterioração ao longo do tempo?
Nesse contexto, torna-se inevitável falar sobre gestão de recursos em sentido amplo: financeiros, materiais, tecnológicos, humanos e todos os demais ativos necessários para sustentar a operação, viabilizar investimentos e proteger a continuidade do negócio.
Não basta investir, mesmo em negócios promissores e em momentos aparentemente adequados, se esses investimentos não estiverem acompanhados de boa gestão dos recursos, controles consistentes e gerenciamento adequado dos riscos.
No ambiente das cooperativas, algumas das causas recorrentes de insucesso estão relacionadas a políticas de crédito e cobrança inadequadas, controles insuficientes, aceitação de resultados abaixo do necessário sem adoção tempestiva de medidas corretivas e ausência de gerenciamento estruturado de riscos. Esses fatores, quando combinados com uma gestão pouco firme, reduzem a margem de segurança necessária para enfrentar períodos prolongados de crise, como os vividos atualmente em diversas regiões do Rio Grande do Sul, marcados por sucessivas frustrações de safra, juros elevados e limitação de acesso ao crédito.
Após essas considerações, surge um elemento que merece destaque: o processo de capitalização, indispensável para dar sustentação ao crescimento. Empresas e cooperativas com baixos níveis de capitalização ficam mais vulneráveis, expostas a riscos com potencial de impactos relevantes. Quando a baixa capitalização se encontra com uma gestão frágil, a continuidade passa a depender mais da sorte do que de fundamentos sólidos. Por outro lado, mesmo organizações que enfrentaram dificuldades profundas podem se recuperar quando há gestão adequada dos recursos, disciplina financeira e capacidade de reconstruir a confiança necessária para sustentar novos ciclos de crescimento.
Em conclusão, investimentos e rentabilidade são fundamentais para assegurar o crescimento sustentável das organizações. Contudo, sem uma boa gestão dos recursos, capitalização adequada e gerenciamento consistente dos riscos, o crescimento tende a perder sustentação ao longo do tempo. O equilíbrio entre ambição, disciplina e prudência é, portanto, um dos pilares que sustenta empresas e cooperativas capazes de atravessar ciclos, preservar valor e permanecer relevantes no longo prazo.
