O ESG (Environmental, Social and Governance) deixou de ser apenas um conceito em evidência e se consolidou como um pilar estratégico também em contabilidade para empresas de todos os setores. Mais do que práticas socioambientais, o ESG hoje precisa ser traduzido em informações financeiras confiáveis, auditáveis e comparáveis, capazes de orientar decisões de investidores, gestores e órgãos reguladores.
Como afirma a auditora Suellen Westin, que acompanhou o tema na Convenção de Contabilidade 2025, “a contabilidade tem papel central em tornar a sustentabilidade quantificável e transparente, ajudando empresas a tomar decisões mais conscientes e a demonstrar responsabilidade corporativa”.
Vale: relatórios de sustentabilidade com base contábil
A partir de 2027, será exigência regulatória no Brasil que empresas de capital aberto adotem o novo padrão global do ISSB (International Sustainability Standards Board), que inclui riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade, nos relatórios financeiros. Mas a Vale se antecipou e tornou-se pioneira no país, ainda em 2025, ao publicar seu primeiro relatório de resultados nesse formato, provando como indicadores ambientais podem ser tratados como informações contábeis.
O documento traduz em números, como investimentos, riscos, oportunidades e metas de redução de emissões, os impactos financeiros da estratégia de descarbonização da companhia. Isso só foi possível porque há metodologias contábeis e de auditoria aplicadas à sustentabilidade que garantem que os dados divulgados sejam comparáveis a outras demonstrações financeiras.
Além dos investimentos de 2024 para descarbonização, foram relatadas iniciativas para redução de emissões diretas, avaliação permanente dos riscos relacionados às mudanças climáticas e monitoramento contínuo de sustentabilidade em toda a cadeia de valor, utilizando análise de cenários climáticos para avaliar a vulnerabilidade de ativos e os planos de adaptação. Como afirmou a empresa, o relatório seguirá sendo divulgado anualmente, e cada vez mais contando com a contabilidade e auditoria como guardiãs da transparência.
Renner: mensuração e auditoria em metas de descarbonização
No setor de varejo, a Renner também mostra como ESG e contabilidade podem gerar enorme valor quando integrados. Seus compromissos de neutralidade de carbono até 2050 e as metas submetidas à SBTi (Science Based Targets Initiative), iniciativa global que orienta as organizações a definirem objetivos de descarbonização em conformidade com o Acordo de Paris, dependem de métricas auditáveis e da inclusão de indicadores não financeiros nos relatórios anuais.
Com resultados concretos de produção sustentável e divulgação de que 100% da energia vem de fontes renováveis, a auditoria independente prova ter papel fundamental ao comprovar, validar e garantir os resultados divulgados. Além disso, a estratégia de circularidade e rastreabilidade por blockchain representa um avanço que só é possível porque pode ser traduzido em controles internos e registros contábeis confiáveis.
CPC 51: nova estrutura contábil e potencial integração com ESG
Encerrada em setembro de 2025, a audiência pública do CPC 51 marca um avanço importante na modernização das demonstrações contábeis no Brasil. A norma, que vai substituir o CPC 26 a partir de 2027, alinha o país às diretrizes internacionais da IFRS e traz uma nova lógica de apresentação das receitas, despesas e medidas de desempenho, mais clara e comparável.
“Ainda que o CPC 51 não trate diretamente de ESG, sua estrutura mais moderna cria condições para que as demonstrações financeiras incorporem, de forma consistente, informações relacionadas à sustentabilidade, como preveem as normas IFRS S1 e S2”, afirma Suellen. Ao permitir medidas de desempenho personalizadas, que podem incluir indicadores ESG definidos pela administração, e ao reforçar a transparência, que é elemento central da governança corporativa, o novo CPC aproxima a contabilidade do papel que ela precisa exercer nos próximos anos: traduzir sustentabilidade em números e desempenho em credibilidade.
ESG como parte do resultado corporativo
O avanço de normas como o IFRS S1 e S2 mostra que a linha entre contabilidade financeira e relatórios de sustentabilidade deixou de existir. Auditoria e contabilidade passam a ter a responsabilidade conjunta de estruturar relatórios de sustentabilidade dentro do mesmo rigor das demonstrações financeiras; validar informações ESG que impactam valuation, riscos e projeções de negócios e assegurar a comparabilidade internacional dos dados divulgados.
“Integrar ESG à contabilidade é mais do que cumprir regras, é transformar dados em decisões estratégicas, consolidando sustentabilidade e governança como pilares do crescimento corporativo”, conclui Suellen Westin.
