Por José Roberto Simas, auditor e sócio da DM
Quando se fala em geração de valor empresarial, é comum associar o tema ao crescimento das vendas, ao aumento dos lucros ou à expansão das operações. Embora esses fatores sejam importantes, o verdadeiro valor econômico de uma empresa é resultado direto da qualidade das decisões tomadas por seus gestores ao longo do tempo.
Cada decisão estratégica, financeira ou operacional produz impactos que vão além dos resultados imediatos. Elas influenciam a capacidade da empresa de gerar caixa, controlar riscos, manter sua competitividade e sustentar o crescimento de longo prazo. Em outras palavras, a gestão é uma das principais responsáveis pela criação ou destruição de valor econômico.
O que é valor econômico?
O valor econômico de uma empresa representa sua capacidade de gerar benefícios futuros para seus proprietários, investidores e demais partes interessadas. Diferentemente do lucro contábil de um determinado período, o valor econômico considera a sustentabilidade dos resultados, o nível de risco envolvido e as perspectivas futuras do negócio.
Uma empresa que apresenta bons resultados hoje, mas que adota práticas de gestão inadequadas ou acumula riscos relevantes, pode ter seu valor reduzido no mercado. Por outro lado, organizações que investem em governança, eficiência operacional e planejamento estratégico tendem a aumentar sua capacidade de geração de valor ao longo do tempo.
As decisões gerenciais impactam diretamente fatores que compõem o valor econômico da organização.
1. Decisões financeiras
A forma como a empresa administra seus recursos financeiros pode fortalecer ou comprometer sua saúde econômica.
Por exemplo, um crescimento acelerado financiado por elevados níveis de endividamento pode gerar resultados de curto prazo, mas também aumentar significativamente os riscos financeiros. Em cenários de alta dos juros ou redução da demanda, essa estratégia pode comprometer a geração de caixa e reduzir o valor da empresa.
Por outro lado, uma política financeira equilibrada, com controle do capital de giro, adequada gestão de dívidas e investimentos bem avaliados, contribui para a sustentabilidade do negócio.
2. Decisões operacionais
A eficiência operacional está diretamente relacionada à geração de valor.
Processos bem estruturados, controle de desperdícios, uso adequado da tecnologia e monitoramento de indicadores de desempenho permitem aumentar a produtividade e reduzir custos. Como consequência, a empresa melhora suas margens e fortalece sua posição competitiva.
Um exemplo simples é a implantação de controles internos que reduzam perdas de estoque ou erros operacionais. Embora o investimento inicial possa parecer elevado, a economia gerada ao longo do tempo normalmente supera o custo da implementação.
3. Decisões estratégicas
A definição dos rumos do negócio é uma das responsabilidades mais importantes da gestão.
Entrar em novos mercados, lançar produtos, realizar aquisições ou expandir operações são decisões que podem gerar grandes oportunidades, mas também riscos significativos. Quando baseadas em análises consistentes e informações confiáveis, essas iniciativas tendem a fortalecer o posicionamento da empresa e ampliar sua capacidade de geração de resultados futuros.
Em contrapartida, decisões estratégicas tomadas sem planejamento ou sem adequada avaliação de riscos podem comprometer recursos e destruir valor.
4. Decisões relacionadas à governança e conformidade
Nos últimos anos, investidores, instituições financeiras e parceiros de negócios passaram a valorizar cada vez mais empresas que demonstram transparência, controles internos eficazes e conformidade regulatória.
Práticas sólidas de governança corporativa contribuem para reduzir riscos, aumentar a confiança dos stakeholders e facilitar o acesso a capital. Já falhas de controles, problemas regulatórios ou fraudes podem resultar em perdas financeiras expressivas e danos reputacionais difíceis de reverter.
Um exemplo prático
Imagine duas empresas do mesmo segmento, com faturamento e porte semelhantes.
A primeira busca crescimento rápido e toma decisões focadas exclusivamente em resultados de curto prazo. Possui controles internos limitados, planejamento financeiro insuficiente e pouca atenção à gestão de riscos.
A segunda adota uma visão de longo prazo, investe em processos, controles, capacitação das equipes e acompanhamento de indicadores estratégicos.
No curto prazo, ambas podem apresentar resultados parecidos. Entretanto, com o passar dos anos, a segunda empresa tende a apresentar maior estabilidade financeira, menor exposição a riscos e melhores condições para aproveitar oportunidades de mercado. Como consequência, seu valor econômico tende a ser superior.
O papel da auditoria na geração de valor
Nesse contexto, a auditoria desempenha um papel relevante ao fornecer avaliações independentes sobre processos, controles internos, gestão de riscos e qualidade das informações utilizadas na tomada de decisão.
Ao identificar oportunidades de melhoria, fragilidades de controle e riscos que podem afetar o desempenho do negócio, a auditoria contribui para que a administração tome decisões mais assertivas e alinhadas aos objetivos estratégicos da organização.
Mais do que uma ferramenta de conformidade, a auditoria atua como um importante instrumento de apoio à criação e preservação de valor.
Conclusão
O valor econômico de uma empresa não é construído apenas pelos resultados financeiros apresentados em seus demonstrativos. Ele reflete, principalmente, a qualidade das decisões de gestão adotadas ao longo do tempo.
Decisões bem fundamentadas, associadas a uma gestão eficiente, controles internos adequados, governança sólida e visão estratégica, fortalecem a capacidade de geração de resultados sustentáveis e aumentam o valor do negócio. Por outro lado, decisões precipitadas ou baseadas em informações inadequadas podem comprometer o desempenho e destruir valor.
Em um ambiente empresarial cada vez mais competitivo e dinâmico, a gestão responsável e orientada por informações confiáveis deixou de ser apenas um diferencial. Tornou-se um fator essencial para a perenidade e o sucesso das organizações.
