Por Erni Dickel, sócio da Dickel & Maffi
Na prática da auditoria, aprendemos que números contam histórias. Mas antes dos números, vêm decisões. E antes das decisões, vêm valores.
Ao longo de anos auditando e assessorando empresas de diferentes portes e setores, especialmente sociedades cooperativas do agronegócio, tornou-se evidente um padrão recorrente: organizações que tratam ética apenas como discurso enfrentam crises, mas aquelas que a incorporam como prática, constroem fortalezas e longevidade.
Liderança ética não pode ser considerada um tema abstrato, e sim ser encarada como instrumento concreto de gestão de riscos.
Programas de compliance e controles internos são fundamentais, mas sua efetividade depende do comportamento diário das lideranças, pois o gestor é o primeiro filtro de risco da organização. É ele quem define prioridades e comportamentos sob pressão, interpreta metas agressivas e estabelece, através do exemplo, o que é aceitável.
Problemas raramente começam grandes. Eles se desenvolvem em ambientes onde pequenas inconformidades são relativizadas, onde metas não dialogam com controles, onde o questionamento não encontra espaço, onde os problemas ou dificuldades não são encarados de frente e decisões importantes são procrastinadas. A prevenção, portanto, não ocorre apenas por auditorias periódicas, mas por decisões gerenciais coerentes e documentadas, embasadas em adequado ambiente de controles e informações, submetidos a um trabalho sério e competente de auditorias internas e externas.
Empresas mais resilientes formam lideranças consistentes entre discurso e prática, decisões fundamentadas e ambiente seguro para questionamentos. Quando o gestor assume esse papel, deixa de ser apenas executor da estratégia e passa a ser guardião da integridade do ambiente de negócios em que a empresa atua.
O rigor ético não reduz competitividade. Ao contrário, reduz contingências, fortalece a governança e protege as margens, trazendo segurança ao negócio como um todo, envolvendo clientes, fornecedores, agentes financiadores, investidores e as pessoas. A contabilidade e a auditoria, quando integradas à estratégia, deixam de ser instrumentos reativos e tornam-se mecanismos preventivos. O gestor ético não teme transparência, ele a utiliza como ferramenta de gestão e com ela se fortalece.
Liderança ética não é mais um diferencial reputacional. É sim um ativo estratégico e condição básica para sustentabilidade no longo prazo.
